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8 de fev de 2012

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Típicos Personagens Negros da Literatura Brasileira

O negro escravo enquanto ser humano, enquanto pessoa, com seus dramas existenciais, amores e tristezas, esteve conspicuamente ausente da literatura brasileira do século XIX. Presos a um projeto de construção nacional conciliatório e pacificador, os autores contemporâneos buscavam consenso e não dissenso, conciliação e não denúncia, idealização e não realidade.

Naturalmente, a escravidão, a grande nódoa moral do Brasil, terminaria solemente varrida para debaixo do tapete. Não era assunto apropriado.

Entretanto, um país com grande parte de sua população negra ou mulata e completamente dependente de sua força de trabalho, não conseguiria realmente escondê-los. Se o escravo em sua plenitude humana foi raríssimas vezes apresentado na literatura canônica, vários tipos ou estereótipos de negros escravos eram figuras recorrentes.

O Bom Negro
 Iaiá Garcia MACHADO DE ASSIS

Inspirado talvez no Pai Tomás, a literatura brasileira é repleta, nas suas sombras e nos seus cantos, sempre nos bastidores, de escravos completamente fiéis aos seus senhores, nunca questionadores da escravidão, agradecidos por cada migalha de bondade jogada em sua direção.
Muitos, como Raimundo, de Iaiá Garcia, de Machado de Assis, Luis, de Gonzaga, de Castro Alves, decidem continuar servindo seus amos mesmo depois de livres, pois "amos bons assim não se encontra". Apesar disso, esses personage  Castro Alves: Obra Completa CASTRO ALVES  ns não merecem respeito algum de seus maravilhosos amos e não são tratados com a dignidade de homens livres.

A peça Gonzaga se inicia com o bondoso e abolicionista amo cavalgando e o pobre Luiz, homem livre, abjetamente correndo atrás dele para poder segurar as rédeas quando o senhor quiser parar. Raimundo, ao   Escrava Isaura, A BERNARDO GUIMARAESlongo de todo o romance Iaiá Garcia, é chamado de escravo pela bondosa família que ele continua servindo serve - apesar de ser livre há muitos anos.
Outro subgênero do Bom Negro é O Escravo Perfeito, como Isaura, de A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães: nem ela nem a voz narrativa de seu romance jamais questionam a injustiça da escravidão em si. A moral da história não é que a escravidão é cruel e injusta, mas que injustiça é escravizar uma escrava tão boa, prendada, poliglota e branquinha como Isaura.


O Mau Negro
 Demônio Familiar: Comédia em 4 Atos, O JOSE DE ALENCAR
Não faltam escravos perversos. Seja porque negros são intrinsecamente maus, bárbaros e animalizados, seja porque a escravidão é um sistema perverso que animaliza pessoas que, presume-se, de outro modo poderiam ser bons cidadãos, o que importa, parecem alertar esses autores, é que eles são perversos e devemos ter cuidado com eles.
A peça de José de Alencar, O Demônio Familiar, mostra as travessuras de um menino escravo em um típico lar escravocrata. Tantas faz o menino que acaba sendo punido... com a liberdade! Segundo seu amo, agora ele aprenderia a  Vítimas-Algozes: Quadros da Escravidão, As JOAQUIM MANUEL DE MACEDOser responsável por suas próprias ações: o peso de seus pecadilhos recairia somente sobre ele. E alerta: ter escravos dentro de casa é como ter um "demônio familiar".

O romance-denúncia de Joaquim Manuel de Macedo, As Vítimas-Algozes, segue uma linha ainda mais radical: enquanto o escravo de Alencar faz apenas peraltices, os escravos de Macedo matam, torturam, roubam, envenenam, sequestram; fazem, em suma, tudo o que de ruim uma pessoa pode fazer a outra.

O livro é um verdadeiro catálogo de horrores e a mensagem é uma só: escravos são maus. Sim, o próprio título deixa claro que os negros também são vítimas, mas quem é que deseja esse tipo de "vítima-algoz" morando em suas casas?


O Negro Sexual
 Antologia GREGORIO DE MATOS
Um subgênero do escravo mau - afinal, para as sensibilidades do século XIX, ser sexual é ser inerentemente mau - é o escravo sexual. De acordo com o senso-comum da época, o negro seria eminentemente mais sexual e animalizado que o branco, e mais ainda pela convivência próxima e forçada com outros escravos (igualmente animalizados, claro) nas senzalas.
Carne, A JULIO CESAR GARCIA RIBEIRO
Desde Gregório de Mattos, a crioula ou mulata já vinha sendo construída como um paradigma de sensualidade, uma mulher mais sensual, mais entregue aos seus instintos e paixões que as brancas carolas e pudicas. No século XIX, esse paradigma já se encontra completamente formado.
Um dos escravos cruéis de As Vítimas-Algozes é uma Bom-Crioulo ADOLFO CAMINHA escrava ciumenta querendo se vingar do patrão. Em A Escrava Isaura, sua maior antagonista é uma mulatinha sensual, que cedeu facilmente aos avanços do patrão e foi logo descartada em favor da "difícil" Isaura. Em A Carne, de Júlio Ribeiro, é um bacanal que a protagonista testemunha na senzala, corpos nus e musculosos dançando e se roçando, que cataliza sua descida ao submundo do sexo.

Finalmente, em O Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, um ex-escravo homossexual, que teria aprendido esses vícios na licenciosidade da senzala, arranja emprego de marinheiro - afinal, um outro ambiente onde homens podem viver em proximidade e camaradagem - em uma história que acaba em tragédia e morte. Mesmo já durante a República Velha, a mensagem é clara: sexualizados e pervertidos pela escravidão, os ex-escravos continuam sendo uma ameaça à sociedade.

Por trás de tantos paradigmas e estereótipos, atrás das cortinas e sob as sombras, escondia-se a humanidade de milhões de brasileiros.

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