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30 de out de 2013

É O CARA!!


O Rappa: me engana que eu gosto


A banda que simbolizava o rock "por um mundo melhor" agora quer seguir os "caras bem sucedidos" quem mandam "no mercado". Mais um capítulo de "Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar"

Por Ricardo Alexandre 


O rock é uma mentira. John Lennon não era tão comunista quando “Imagine” faz supor. O Yes não era tão encantado quanto seu light-show te leva a crer. O U2 não é tão santo quanto as músicas com letras de Salmos querem nos convencer. 
É uma mentira, mas não no sentido do discurso ardilosamente fabricado para enganar e usurpar. Talvez seja um norte, um discurso sob o qual nos escondemos em direção a algo que queremos ser, uma ideia que gostaríamos de ver disseminada.

Seja como for, eu não me importo que estejam me enganando. 
Na verdade, em se tratando de entretenimento, em rock’n’roll, eu quero ser enganado. Como cantava o filósofo Jon Bon Jovi, se você não me ama, minta para mim.

Mas minta com categoria.

Quando a jornalista Daniela Broitman, minha colega dos tempos do suplemento Zap!, anunciou que seu documentário Marcelo Yuka no caminho das setas (2011) traria, finalmente, a explicação mais clara e escancarada sobre a saída do baterista do O Rappa, eu jamais imaginaria que veria o vocalista Marcelo Falcão olhar para a câmera e reclamar de que Yuka estava trazendo uma carga social grande demais para a imagem da banda. “Mas não foram essas causas que fizeram do grupo o que ele se tornou?”, pergunta Daniela. E Falcão responde:

“Eu defendo todas [as causas sociais, mas] sem me associar politicamente a nenhuma. 
Eu não vou botar boné [de movimentos sociais]. 
Eu vou botar boné da minha marca. Jay-Z fez isso, Puff Daddy fez isso. Caras bem sucedidos. Hoje quem manda no mercado americano são os rappers americanos.”

Mercado? Caras bem sucedidos?? Minha marca??? Ãhn???? 
Espera aí. Ninguém está pedindo que o artista deixe de usar relógios mais caros do que a minha casa, nem que pare de trocar de namoradas modelos e atrizes mais rapidamente do que eu possa acompanhar pelo Ego.
 Não quero que ele realmente se importe com o protocolo de Kyoto ou que encare o Projeto Na Palma da Mão como algo mais do que marketing para sua carreira.

Só quero que se esforce um pouquinho em não parecer um ser completamente desprovido de alma. 
Que me engane um pouquinho.
Marcelo Yuka em cena do documentário No caminho das setas: boné de causas sociais, não! 
Eu conheci os músicos do Rappa durante uma carona entre a sede da gravadora WEA e a CD-Expo, uma feira para o mercado de discos realizada no Riocentro em 1996. Caras bacanas. Mas eram artistas, gente com assessores e paparicadores em volta, muito diferentes dos tipos com quem eu convivia – mesmo em ambiente profissional. 
Lembro que uma das pessoas da equipe da banda me agradeceu porque “conseguimos” estabelecer a banda depois de diversas tentativas mal sucedidas. Eu apenas sorri de volta.

Não sou um grande especialista em reggae, mas sabia reconhecer as virtudes do O Rappa desde o início – até porque elas foram ficando mais evidentes entre o primeiro álbum e o terceiro, o ótimo e intrincado Lado b Lado a, de 1999. 
Achava que a maior delas era entender o reggae como um gênero ainda em evolução, diferentemente das versões caricaturais como o Natiruts ou anêmicas como Cidade Negra.

Marcelo Yuka, além de letrista e baterista, era uma espécie de esteta do grupo. Era quem frequentemente era acionado para entrevistas, muito por seu interesse em movimentos sociais, mas muito por seu conhecimento enciclopédico sobre música brasileira de matriz negra. 
Quando deixou os Raimundos, o vocalista Rodolfo Abrantes me confessou que sempre se sentia constrangido ao comparar sua banda de forrocore com O Rappa e sentir que estes estavam usando seu espaço na mídia de forma muito mais digna. E Yuka era o mentor de tudo isso.

Quanto, em novembro do ano 2000, o baterista foi atingido por nove tiros, atraiu sobre si atenção nacional. Quando retornou à carreira, preso a uma cadeira de rodas, tornou-se uma figura humana tão grande quanto fora Cazuza dez anos antes. 
Seu nome era urrado nos shows do quinteto. O mito só crescia, assim como, aparentemente, o ciúme de seus colegas.

A separação se deu principalmente por causa de divisão de direitos autorais – os quatro pleiteavam uma divisão mais equânime. Yuka era o letrista, e recebia a mais por isso. 
Mas a relação entre as partes já havia se esgarçado tanto que, em determinado ponto do documentário, o tecladista Marcelo Lobato reclama que, depois de ser baleado, perder os movimentos da cintura para baixo e passar a sofrer com dores “24 horas por dia”, Yuka não aparecia em todos os ensaios que a banda agendava. 
Reclama também que as ideias para novas composições já não brotavam com a mesma facilidade de antes.

Yuka foi o primeiro personagem do “Entrevistão” da Bizz na volta da revista, em 2004. Foi a primeira vez em que ele se deixou registrar com todo o desconforto e raiva que sua condição lhe trazia. Ainda assim, foi delicado ao se referir aos ex-colegas de banda. 
Na época, sua nova banda F.UR.T.O. lançava seu único disco, embalado no semi-sucesso “Flores nas encostas do cimento”. Yuka escrevia letras para outros artistas, como Max de Castro e Marisa Monte.

Mas já naquela época, ficava claro que os tiros, seguido da expulsão da banda que formara, haviam mudado Yuka também por dentro.

Quanto ao O Rappa, a banda fez o que qualquer banda com aquela quantidade de sucessos iniciais faria: alternou estrategicamente discos inéditos (três, sempre trazendo um novo sucesso em meio a vários fillers) com projetos ao vivo que recombinavam o repertório inicial com o material mais recente (também três, dois elétricos e um Acústico MTV).

E conseguiu o que queria quando dispensou Yuka: entregar-se ao mercado, a Grande Babilônia que todos os grandes reggaemen tentaram derrubar.

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