TODO DIA ...É 1 TEXTO NOVO!!!

1 de out de 2013

COISAS SECRETAS!!!!


Toda segunda agora eu vou!!!
Descobri um precioso tesouro bem ao lado do prédio onde trabalho....
Estou falando do Consulado da França e do Cine Maison. 

http://www.cinefrance.com.br/cinemaison-rio

Ontem o filme que assisti me tirou o ar!! Literalmente!!!



O filme se chama " Coisas Secretas" do Jean-Claude Brisseau - e dentre os atores e atrizes temos :
Coralie Revel, Sabrina Seyvecou, Fabrice Deville e Roger Miremont




Grande filme libertino.
Brisseau introduz o desejo feminino no poder social e político: é a guerra.
Nathalie ensina a Sandrine que a transgressão sexual pode causar um prazer violento e proporcionar a quem se serve dela uma poderosa arma para subir na hierarquia social.

Decidem arranjar emprego , um ambiente onde as vítimas abundam.



Depois de se aproveitarem de vários quadros superiores chegam a Christophe, filho do patrão e futuro director do banco. Mas, o jovem, de carácter libertino, estabelecerá um conjunto de regras completamente novo...

Ainda sobre o filme , vale a pena dar uma lida nisso que escreveu o Bruno Andrade:


Coisas Secretas, de Jean-Claude Brisseau
Choses Secrètes, França, 2002

As coisas de sempre

Eu gostaria de poder escrever algo formidável como a frase de Nicole Brenez para The Blackout (Abel Ferrara, 1997), que descreve e sumariza o filme de maneira precisa: "A mais bela e triste elegia à imagem já feita".
Reconhecendo minhas incapacidades, só consigo declarar o seguinte: Coisas Secretas é o mais importante filme francês desde Paixão (Jean-Luc Godard, 1982).



1. Do nascimento da imagem

Vamos direto ao que importa: os problemas de Coisas Secretas são todos de ordem cinematográfica. Signos e suas significações, como filmar o trabalho (as ausências, os fluxos, os corpos e suas trajetórias) e como fazer da câmera um corpo que responde e se relaciona a tudo isso. Não há uma cena que desobedeça o programa estético rigoroso e brilhante que Brisseau institui ainda na primeira cena do filme: num palco de um strip-club, um corpo feminino nu movimenta-se de maneira vulgar e absolutamente sensual.
A câmera lentamente se desprende desse corpo, traça um percurso que atravessa o público espectador da performance e chega no barzinho onde vemos uma garçonete que igualmente observa. Mestria completa num movimento que é tão simples quanto perfeito: as duas protagonistas são situadas num espaço bastante específico (ao qual elas pertencem), suas ocupações são determinadas rapidamente e o espaço que as separa nesse início é justamente o espaço percorrido pela câmera - o espaço que separa uma imagem (de desejo, de sexualidade) de seu observador (que deseja, que fantasia).
Podíamos estar num filme assinado Fritz Lang (O Tigre de Bengala,Desejo Humano) ou Brian De Palma (Vestida Para Matar, Femme Fatale), mas esta imagem de base que fornece o que será vital à dramaturgia pertence tão-somente e apenas a Brisseau (os planos que abrem Boda Branca e Anjo Negro são exemplos deste tipo de sobriedade cênica).

2. A Girl and a Gun (ou melhor ainda, A Girl is a Gun)

São duas as protagonistas de Coisas Secretas: Nathalie e Sandrine. A primeira morena, a segunda loira. Às coisas uma ordem: quem é o objeto de desejo e aquele que deseja? Essa foi uma das questões que volta e meia durante a projeção eu precisava retomar, e é apenas uma das várias que o filme propõe num primeiro momento apenas para conseqüentemente diluir, confundir ou tornar deliberadamente confusa e arbitrária.
Como nas relações entre o professor Bruno Cremer e a aluna Vanessa Paradis em Boda Brancaou entre o advogado Tchéky Karyo e a dondoca Sylvie Vartan emAnjo Negro, para Brisseau não existe uma linha precisa e irreversível que separe objeto de sujeito: ambos se confundem na medida em que as tensões entre as personagens desenvolvem-se, e desta confusão Brisseau desenvolve toda uma estratégia de encenação.
Os movimentos quase imperceptíveis da câmera - que hora revelam muito pouco, hora revelam demais -, os embates sexuais entre as personagens, a atenção dada ao décor como espaço de encontros íntimos e clandestinos, tudo isso Brisseau concebe não como um mero dispositivo de representação de sexualidade/sensualidade mas - e é aqui que percebemos o grande trunfo de sua encenação - como um cinema que devolve a todas essas coisas (secretas ou não) o rigor de uma construção, a impecabilidade de uma decupagem, um sentido verdadeiro de mise en scène; enfim, uma vontade enorme de cinema.



3. Uma longa tradição

Jamais - nem mesmo em Buñuel, De Palma ou Almodóvar - o sexo foi tornado material tão essencialmente cinematográfico, para fins tão deliberadamente metalingüísticos. Muitos já tentaram impingir uma forma cinematográfica a estes momentos de onde irrompe uma explosão descomunal de desejo e volúpia - um grupo bastante eclético e formado por cineastas tão diversos quanto Orson Welles, Nagisa Oshima, Carlos Reichenbach, Marco Bellocchio e Claire Denis.
É bem sabido que a sexualidade tem uma vasta relação com a história do cinema e que tal relação já foi várias vezes explorada, mas isso não interessa aqui da mesma forma que não interessa a Brisseau em seu filme. O que de fato importa é perceber nas imagens - e principalmente na forma como são encenadas - todos os estágios da sexualidade respondendo a uma extensa história e como nesta resposta faz-se inevitável a intermediação de diálogos rigorosos e ambivalentes com tópicos de difícil abordagem - religião, moral, sociologia, marxismo, estética, sociedade.
Nada mais absurdo e grosseiro que perceber Coisas Secretas como simples brincadeira de um diretor que apenas quer ver garotas nuas se tocando quando o que Brisseau nos apresenta é um estudo severo sobre poder - do corpo sobre a palavra, do conquistador sobre a conquista, do desejo sobre quem deseja. Várias etapas de um mesmo problema, e um problema que jamais abandona seu estatuto de imagem cinematográfica.

4. Coisas secretas

Sexe is cinema. Há uma cena, e nessa cena um movimento da câmera, que encompassa todo o brilho do filme: Nathalie e Sandrine trocam carícias num túnel de metrô, escondidas numa minúsculo e apertado compartimento. Escutamos o barulho de um trem se aproximando, enquanto as duas ficam cada vez mais excitadas.
O trem passa por elas (Lumière ou Méliès?), e é neste momento que a câmera muda seu registro: um travelling reorganiza toda a cena (esse é felizmente um filme composto por cenas), e nessa mudança do posicionamento da câmera (e do diretor, pois esse é também um filme de mise en scène) diante da situação filmada, o túnel do metrô é transformado em única opção de caminho para as duas garotas.
É a partir desta cena que ambas iniciam o percurso bizarro que terão de traçar até a resolução, um percurso que é tanto o resto da caminhada pelo túnel do metrô quanto os pequenos flertes que as personagens experimentarão em pequenos corredores, portas entreabertas, banheiros de escritório, caminhadas pela cidade, conversas por telefone. Este percurso obscuro, estranho e violento é na realidade o que encaminha Nathalie e Sandrine rumo à transcendência, ao que de fato é uma ascese - como em dois dos autores favoritos de Brisseau, Eric Rohmer e Valerio Zurlini.
Não por acaso o reencontro das moças, ao final do filme, ocorre precisamente quando Nathalie se encontra a caminho da entrada de uma estação de metrô. Como peça de arquitetura, música, teatro ou dramaturgia - enfim, como cinema -, Coisas Secretas revela de pouco em pouco a perfeição de suas geometrias, das uniões cuidadosas que Brisseau opera para construir imagens que nos encantam por suas tristes belezas e pela profunda moral do diretor.

5. Sex is cinema
E por isso Coisas Secretas, durante seus cento e quinze minutos de duração, nos oferece todo o cinema do mundo.
Bruno Andrade

S.E.N.S.A.C.I.O.N.A.L !!!

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