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21 de ago de 2012

‘Viver é como desenhar sem borracha’



O menino Vinicius Nascimento e João Miguel contracenam em “À beira do caminho”
Foto: Camilla Maia / Agência O Globo
O menino Vinicius Nascimento e João Miguel contracenam em “À beira do caminho” 
Aos 17 anos, Breno Silveira sofreu uma desilusão amorosa tão intensa que o conselho do pai para que pegasse sua (do pai) moto e fosse se divertir em Ipanema acabou na primeira curva da Urca, onde moravam, com o adolescente esborrachado no chão. Foi ali, com Breno “todo ralado, triste, mais ferrado ainda”, que o arquiteto Cydno lhe deu uma fita cassete que havia gravado, com dez músicas de Roberto Carlos, e o conselho: “É para você saber que todo mundo sofre.”

O filho, hoje com 48 anos, nunca mais deixou de ouvir Roberto. Ao som do Rei, viveu momentos amorosos, dramáticos, até engraçados, mas sempre emocionantes — como quando voltou da França, depois de dois anos de estudos, e ao chegar em casa as caixas de som na varanda ecoavam para toda a rua os versos de “O portão”. A partir desta sexta-feira, quando “À beira do caminho”, seu terceiro filme, estreia em 200 salas do país após se consagrar na última edição do Cine PE, em maio, com seis prêmios, entre eles de melhor filme pelos júris oficial e popular, a paixão do cineasta será dividida com, esperam os produtores, pelo menos 1 milhão de espectadores, podendo chegar a mais. Convém não subestimar a capacidade do diretor de “2 filhos de Francisco” (2005), visto por 5,3 milhões de pessoas, de falar fundo no peito dos brasileiros.

— O meu filme é como uma canção de Roberto. Elas são simples, singelas nas letras, mas ao mesmo tempo profundas e cortantes. O “Beira” é isso. Ele consegue ser simples na história, singelo na forma, mas pega profundamente as pessoas, corta, dói — diz Breno.

‘Viver é como desenhar sem borracha’

A fala acima, provavelmente, foi construída nas várias sessões fechadas do longa, nas quais Breno pôde conferir o efeito “tantas emoções” provocado pela viagem, roteirizada por Patrícia Andrade, do caminhoneiro João (João Miguel, em atuação devastadora) e do menino Duda (o tocante Vinicius Nascimento). A trama, que fala de perdas, mas principalmente de amor e de redenção, comoveu o público formado por grupos de pesquisa, jornalistas, amigos, e de forma especial, aqueles que acompanharam a dor causada pela morte, durante o processo de edição, da mulher do diretor, Renata Magalhães da Silveira, a quem o filme é dedicado. Breno, nas últimas semanas, lutou arduamente contra a exploração desse fato pela imprensa, e se decepciona com os artigos que exploram sua dor, fazendo um paralelo entre o seu sofrimento e o do personagem João.

— Meu filme não é uma tragédia, não é pesado. É a história de um homem reaprendendo a amar. Mostra que nunca é tarde para revisitar suas dores e entendê-las — diz.

E tem razão. Quando se encontram, João e Duda estão em busca, cada um, de desembaralhar a sua própria história: o primeiro, brutalizado por um acontecimento do passado que aos poucos vai sendo revelado ao espectador; o segundo, sozinho após a morte da mãe, procura esperançosamente o pai, que nunca conheceu. Vinicius, falante e, apesar das circunstâncias, de bem com a vida, impõe ao calado e pouco amistoso João uma carona. De Juazeiro a São Paulo, a paisagem do Brasil, tão cara a Breno, aqui fotografada por Lula Carvalho, funciona no filme como uma “metáfora da alma de João” — no início o personagem é seco, árido, depois leva um banho de rio do companheiro indesejado, e aos poucos os lugares começam a se tornar verdes. No fim, observa o diretor, “o cara que não queria ver ninguém, nenhum ser humano, acaba em São Paulo, a cidade mais populosa do país”.

O trajeto, em que João encontra ainda a ex-namorada Rosa (Dira Paes) e os personagens de Denise Weinberg e Angelo Antônio, em pequenas e marcantes participações, é pontuado por frases de para-choques de caminhão, como que demarcando capítulos: “Viver é como desenhar sem borracha”, “Não há mal que perdure, nem dor que não se cure”, entre outras, sintetizam estados de espíritos do personagem. “Espere o melhor, prepare-se para o pior, aceite o que vier” foi escolha de Breno para fechar a obra, quando, para conforto do espectador, há redenção.

— Esta frase fui eu que fiz questão de pôr ali, porque fazia sentido para mim — diz ele, um cara assumidamente emotivo, desbragadamente apaixonado pelas coisas brasileiras e por pessoas simples, e que nunca temeu ser chamado de “sentimental demais”. — Há uma linha muito tênue entre o piegas, o clichê, e o que tem verdade, sentimento. É nessa corda bamba que eu gosto de andar.

Dando o tom de tudo, as canções de Roberto. Foram elas o mote do argumento da jornalista Léa Penteado, que teve a ideia depois de ver, num posto de gasolina de estrada, um caminhoneiro comendo sozinho na cabine enquanto ouvia, em alto volume, um CD do cantor.

Breno estava tocando a produção de “Gonzaga — De pai para filho”, um épico gigantesco, quando, como ele diz, chegou o “vento fresco do ‘Beira’”, um filme de produção mais leve, com poucos atores e equipe enxuta. Escolhidos João Miguel — com facilidade, na primeira leitura — e Vinicius — com certo sofrimento, mas ótimo resultado, depois de testes com 500 meninos — tudo andou rápido, inclusive as três viagens em que percorreu o trajeto do personagem João, de Juazeiro a São Paulo, acompanhado do produtor Tim Maia, para escolher locações. Neste, como em seus outros três filmes (entre “2 filhos de Francisco” e “À beira do caminho” lançou em 2008 “Era uma vez...”, com 500 mil espectadores, e estreia, ainda este ano, “Gonzaga”, um blockbuster anunciado), não há cenas de estúdio, só locações.

— Sempre tem uma pedrinha no caminho que dá para entrar — diz.

Voltando a Roberto: o processo foi tão rápido que Breno começou a filmar sem a autorização do artista. Àquela altura, a conselho de Léa, decidiu que era melhor esperar que o filme ficasse pronto para mostrar ao Rei. Foi com humildade que lhe entregou uma fita, conseguindo permissão para usar quatro músicas. No filme, entram, na voz de Roberto, “O portão”, “Outra vez”, “Como vai você” e “A distância”, sugestão do próprio cantor. Também estão lá “Nossa canção”, com Vanessa da Matta, e “Esqueça”, por Nina Becker. Vinicius ainda cantarola “Amigo”, e João Miguel, novamente “Nossa canção”. O ator, aliás, confessou ao diretor nunca ter chorado tanto enquanto fazia um filme.

— Afinal, quem não sofreu e não amou escutando Roberto? — pergunta Breno.

Ele próprio, como se viu no início deste texto, sofreu a ponto de se autossabotar sobre a moto do pai. Aqui, já no fim, é necessário dizer que aprendeu a lição. Superado o trauma da juventude, amou e amadureceu embalado pelas canções do Rei. Por isso a homenagem do filme à mãe de suas filhas, Olivia, de 18 anos, e Valentina, 16. Foi com Renata que, durante 25 anos, Breno ouviu e se emocionou com Roberto Carlos.

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