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19 de jul de 2012

VULCÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Título: A namorada do Vulcão Iguaçu


Autor: Lasana Lukata


Ninguém morre. Nada está extinto. Os sabiás, os pássaros, passam boa parte dos meses do ano sem cantar, parecem extintos e, no entanto, às vezes outubro ou outro mês desatam a cantar. 

Se o vulcão de Nova Iguaçu voltar a cantar, se voltarmos a ouvir as explosões dos poderosos golpes do martelo de Vulcano na sua bigorna, não estarei desprevenido. 

Um dia, no ano de 2079, o Vulcão de Nova Iguaçu entrou em erupção e tirou a Baixada Fluminense do mapa. Nunca esteve no mapa. Vivia acendendo e apagando. Aparecia no mapa de 4 em 4 anos. No período eleitoreiro. E como já não dava quiabo, feijão, cana, mandioca e votos, esqueceram que um dia existiu a Baixada. 

E voltaram os tempos de reis e rainhas e a princesa Monique, no ano de 3620, passeava por seu imenso jardim, quando tropeçou, um tropecinho, coisa pequena que escavou com o prendedor de cabelos. Pequena garrafa com este poema dentro: 


Monique e Vênus Desmetrificadas: 


uma pastora alemã me mordeu/ 
tão profundo se via os ossos do rosto/ 
e nessa vida tão cheia de rostos/ 
você vem plantar beijo no meu/ 
e mil feridas cicatrizaram/ 
e minha barba sobre elas cresceu/ 
morto rosto? Nada morre, é Proteu/ 
e com a barba cresceram rosas/ 
e vinhedos de Pompéia e Pompeu/ 
e é tão doce o vinho que me deu/ 
que nem lembro se isso já aconteceu/ 
se um vulcão por ti um dia enrubesceu/ 
se teu seio foi vulcão que me aqueceu/ 
perdi as marcas da pastora que mordeu. 


Assinado: Lasana Lukata,lasanalukata@yahoo.com.br

De fato o poema era desmetrificado com 8, 9, 10 sílabas poéticas, percebeu a princesa, mas acompanhava um amor desmetrificado. A deformação era a sua forma. Perdão, princesa, o desmetrificar, mas não fui militar, nem do Pelotão Elétrico, nem do Pelotão de Fuzilamento. Monique amava as poesias. Não sabia como lhe nascera o gosto. Daria tudo para ter um poeta em seu quarto, falando de cavalos-marinhos, ostras, profundidades que já não existiam. 

As acompanhantes da princesa disseram que muitas daquelas garrafinhas haviam sido encontradas no sopé do monte Iguaçu. A princesa, depressa, chamou os arqueólogos do reino e começaram as escavações a partir do sopé do vulcão, em círculos concêntricos, sem poupar sexo e idade. Começou a ficar conhecida como a namoradinha do Vulcão Iguaçu. O pai detestava poesia, porém, executava tudo o que ela queria. Não deixou que pseudos-historiadores, em todo reino sempre há pseudos-historiadores, se aproximassem e roubassem o material do sítio arqueológico. Encontraram muitas passagens. Os arqueólogos descobriram que a Monique do poema era para lá de pentavó da princesa Monique . Mas sua para lá de pentavó não viveu na Baixada. Morrera abraçada a outro homem. Moravam na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro. O outro homem não era poeta. Estavam na Baixada passeando quando da insônia e noitadas do Vulcão de Nova Iguaçu. 

Minha para lá de pentavó, logo você, trocar um poeta por um contador?! Números, ah, sempre os números! Tenho um reino com mil súditos; minha mulher tem mil sapatos; meu filho tem seiscentas mulheres e quatrocentas concubinas; tenho trezentos títulos de nobreza ao meu dispor, Barão, Visconde, Conde, Marquês, Duque... 

E as escavações prosseguiam. O mundo de 3620 estava interessado em saber o que era realmente a Baixada Fluminense. Veja, nunca existiu uma Baixada real, o que encontraremos é uma Baixada vítima de subjetividades dominantes. Baixada. Minha Baixada! Encontraram cadáveres. Na sala de uma casa pobre, uma família cheia de perfurações de fuzis e carabinas; num carro a 30 metros da casa, homens encapuzados, armados de fuzis e carabinas, carregadores vazios. Há coisa que Cronos não consegue engolir. Templos evangélicos próximos tinham pastores com os bolsos cheios de dólares, até diamantes, chaves de 4 a 6 carros diferentes nas mãos, carros que nunca saíram das garagens; prefeitos, deputados com muitas malas carinhosamente guardadas em suas casas, cheias de dólares, euro... 

Escavando mais, encontraram garotinhas de 11, 12 anos calcinadas na prostituição, muitas delas grávidas; uma mulher, vereadora, estava no banheiro, encontrada rodeada de sabonetes, desodorantes, lavava-se e perfumava-se muito por ter abraçado o povo que ela tanto dizia que amava: Esse povo sujo me pegando, me beijando, Dorinha, argh! Dorinha estava de bruços sobre o seu diário com chavinhas à porta do banheiro da vereadora. Eram amigas, mas Dorinha registrou a hipocrisia. 

A princesa foi ficando triste, pensando que a Baixada era só isso, mas as escavações prosseguiram e de repente gritaram, garrafinhas! Como havia poetas na Baixada! Fiquei encantada. Já bem distante do sopé do monte Iguaçu, eta homem espalhado, acharam mais uma garrafinha, poema de Lasana sob o título : 


Abaixo Augusto Comte! 


Ninguém sabe o que faz lava/ 
e as pedras subirem de um vulcão/ 
fiquemos com esta explicação: / 
se a Terra esquenta a cabeça/ 
também dá suas explosões/ 
também dá suas pedradas. 


Mandei recolher as garrafinhas para pendurá-las no meus jardins para quem quisesse lê-las, menos duas, de dois maus poetas de São João de Meriti: o Capenga da Muleta que foi encontrado grudado à sua garrafona napoleônica, poemetos, troféus e medalhas pseudoconquistadas e o seu Ventríloquo, Paco-Currupaco. Mandei o melhor arremessador que havia no reino, lançá-las na boca de Cronos, mas Cronos vomitou-as na hora, feito uma garça que devolve um peixe estragado ao rio. Há coisas que Cronos não consegue engolir. Mandei enterrá-las sob a camada de lama e cinza. E as escavações prosseguiam, era o Dia dos Namorados. Lama e cinza, lama, cinza, corpos, maus poemas daqueles dois, enterra de novo... 

Encontraram uma parede, uma estante de ferro, centenas de livros. Há coisas que Cronos não consegue engolir. Eu mesma desci para ver. Era uma kitchnete. Livros e jornais espalhado por todos os cantos. Estante na cozinha, no banheiro... Peguei um Dom Casmurro. Perfeito, dentro de um marmitex. Dentro o marca livro era uma carta endereçada ao aspirante a poeta Lasana Lukata. Achei o meu poeta, enfim. Mas o impacto me esperava no quarto. A porta devorada de cupins desmoronou. Na escrivaninha de pedra, sentado, lá estava o meu poeta, com a mão esquerda segurava o retrato da minha para lá de pentavó e com a direita firmava a caneta contra o mármore, prendendo um resto de folha de caderno, amarelecido, roído de traça, mas dava para ler este verso: o vulcão é meu chafariz jorrando pedras/ na sua janela desesperadamente. Feito o devido tratamento, levei-o para o meu quarto. 

E no Dia dos Namorados, esse namorado de pedra foi o que me trouxe mais vida. 




Biografia: 
Lasana Lukata é poeta, escritor, pós-graduado Lato Sensu em Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa,UFRJ. 

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