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26 de fev de 2012

carta ...

CARTA ABERTA EM REPÚDIO À COERÇÃO DO PRIMEIRO DE MARÇO

Relações de classes, tencionamentos e contradições na sociedade capitalista

Quando falamos de tensão, ou melhor, tensões sociais, temos que ter em mente uma série de fatores. Entre elas, a condição de vida que, por exemplo, um determinado “vândalo” vive, o porquê de ter cometido tal delito, qual o contexto e o mais importante, quem formula o discurso de que tal vândalo é uma certa aberração da normalidade e que, portanto, deve ser contido. Com esses recursos podemos nos prevenir de reproduzir micro-visões etnocêntricas que só resultam em impossibilitar a emancipação de quem questiona qualquer normalidade.

Ou seja, não despejar todas as nossas convicções políticas ao observar o outro e sim deixar que o outro nasça de uma análise mais cuidadosa não nos pautando pela lógica evolucionista de entender o homem. Em nosso caso, século XXI, existe uma série de forças em questão que apontam para um curioso fato: a modernidade nos apresenta um modelo de poder que se tornou monopolizado por um determinado segmento da população. Segmento este pequeno, porém com muita força de decisão. Todavia, essa força não se apresenta como algo puramente político, contestador da realidade, mas aplica uma determinada concepção que se pretende vitalício não dando vazão para outros aspectos da realidade.

Esta força é algo que só é legítimo perante os cuidados do Estado. Por isso, entre outras tantas, o monopólio da violência, da finanças e das decisões políticas do seu país não precisam ser controladas necessariamente por você. Sim, o “Estado” neste caso é escrito por eles com “E” maiúsculo, para já apresentar uma ideia de soberania. Nos reportaremos a esse estado agora com “e” minúsculo, comum, popular e passível de transformação. Os motivos de alguém transgredir as normas de uma determinada sociedade podem ser as mais diversas possíveis. Mas vamos nos ater ao nosso caso para podermos esclarecer algumas questões.

Hoje, quem comanda a política no Brasil são as grandes famílias empresariais, os ilustrados intelectualmente (que por sua vez ocupam os principais cargos na vida pública, seja nas universidades ou no parlamento) e em sua grande parte financeiramente qualificada para atuar de forma decisiva na sociedade. Essas pessoas reproduzem uma das concepções do capitalismo que é transformar o dinheiro em padrão de acesso aos prazeres anunciados pelo estado de bem estar social que por sua vez também reproduz a lógica do sistema econômico vigente. O conhecimento, por sua vez é a forma mais latente de poder.

Os prazeres encontram-se dentro de uma lógica de consumo. Da família Sarney ao Tiririca, temos uma infinidade de seres que formulam as normas da nossa sociedade. Não queremos com isso encerrar as tensões e disputas apenas na figura do estado. O discurso do que é o “público” é produzido dentro de um contexto representativo para assim ganhar o aspecto de reprodução entoado em larga escala dando o falso sentimento de participação na vida política ativa de qualquer segmento da sociedade. Ou seja, os políticos profissionais, que são seres que se pretendem políticos pelo fato de representarem o seu povo, dedicam suas vidas às intempéries do aparelho burocrático do estado. Aparelho este criado não pela classe subalterna, proletária e escassa de recursos próprios.

Pois o que pertence a estes trabalhadores é a venda de sua mão-de-obra. Cria-se então uma tensão natural do próprio sistema. De um lado os que comandam os recursos e detém o capital. Do outro, aquele que produz e não possui os recursos necessários para consumir aquilo que ele mesmo produz. Ou seja, aquele que produz é alienado dentro da própria função social do capitalismo que por sua vez se pauta nas atividades financeiras. Entramos então num debate que é central em nossa análise. O modelo de estado que se encontra hoje em vigência em sua grande maioria apresenta aspectos que de fato supram a necessidade de um trabalhador comum? Apesar de ao final nossa posição seja de negação, a resposta não é simplesmente um cortante “não”. Temos que observar quais são os valores apresentados para o sociedade e incorporados na maior parte da concepção política do povo.

Este povo, muitas vezes desprovido da real chance de contestação pelas tensões exercidas de uma forma não-horizontal, são coagidos pelas forças que agem contra suas subjetividades resultando num permanente estado de recuo. As forças encontram-se recuadas pelo fato de que quando este proletário percebe que pode revoltar-se, ele já se enfraqueceu para levar adiante o seu desejo de mudança por ter sido esvaziado intelectualmente através de ideologias nocivas. No caso da nossa manifestação das barcas, acontecem muitas coisas que podemos ligar ao contexto que apresentamos em nossa análise. Um deles é o fato de que os organizadores, ou simplesmente aqueles que se encontram em estado de revolta contra a ordem estabelecida, são enfraquecidos pelas tecnologias coercitivas que cercam o desejo de mudar o que se pretende como normalidade.

As investigações da polícia, que por sua vez representa nada mais que a vontade das barcas s.a de frear os ânimos de quem se propõe a manifestar sua oposição no dia primeiro de março, estão direcionadas aos ‘incitadores’ que, através de um vídeo com um discurso inflamado, incitam a violência e influenciam pessoas a fazerem o mesmo. A violência, como já abordamos anteriormente, é monopólio de uma classe: a burguesia, que por sua vez se ramifica entre diversos setores que comandam os interesses da ‘nossa sociedade’.

A polícia então cumpre o seu papel, apresentando para a população uma ideia de que esta é uma “medida preventiva” contra uma possibilidade de ocorrer o que se conhece como Revolta das Barcas que aconteceu em 1959. A história finalmente nos ensina algo. Tomando o devido cuidado com o anacronismo, é muito provável que o povo não se contente em apenas ecoar cânticos de revolta. É pouco provável que os manifestantes apenas liberarem suas energias para o infinito e voltem para suas casas com o dever cumprido. Ocupar as barcas e pular as roletas é importante. Isso insere a dúvida a quem realmente pertence os meios de transporte, as universidades, as escolas, as fábricas e a terra. Ocupar e pular a roleta, enfrentar o terror e o medo que as instituições burocráticas anunciam como ‘preventivas’, mostra que a tensão é muito mais séria do que se imagina.

A revolta é algo iminente, palatável e depende de ações enérgicas e também da violência. Devemos esclarecer, portanto, o que se entende por violência. A violência gera transgressão e não necessariamente se anuncia com o caráter físico. Não devemos incutir a noção de que a violência é algo necessariamente hostil. O cidadão que se transforma em violento por se rebelar contra os abusos autoritários, verticais e ‘democráticos’, nos são apresentados como um possível candidato ao vandalismo.

E aí, a imprensa, a polícia e seu serviço de ‘inteligência’ que identifica os baderneiros e os pune, esvaziam politicamente as contestações de manifestantes que enfrentam no cotidiano as forças normativas que contém os corpos. Nos tornam assim corpos docilizados, prontos para reduzir a revolta que se anunciava outrora como fértil, pois os que defendem os interesses do capital temem o enfrentamento com quem o enclausura. Outro ponto importante é observar de que forma os manifestantes estão organizados e quais são as concepções políticas em disputa. Não só o estado e a burguesia encontram espaço neste campo de batalhas. Mas a própria oposição. Em nosso caso, temos os partidos políticos.

Estes, que seguem com uma concepção de mostrar às massas como ele deve agir já estão impossibilitados de maior ascensão por ocuparem na sociedade o papel de reprodução de uma revolta institucionalizada, partidária, burocrática e ineficiente para a maioria dos trabalhadores. Muitos se aproveitam de oportunidades como essa para ganhar mais corpo nas próximas eleições, que por sua vez serão finalizados na máquina estatal e reproduzirão boa parte das concepções do capitalismo. A luta é pela autogestão, pela transgressão da contenção da nossa subjetividade e capacidade de enfrentamento. O ato vai ocorrer.

Não sabemos ainda de que forma, se vai haver pulaço, se não vai, se vamos nos unificar ou não... Isso, só vamos saber na luta cotidiana com o enfrentamento dos corpos. Mas ao entrar em campo devemos ter a noção de quem é o inimigo, onde está a bola e não cansar no meio da partida. O juiz já apitou. Não contenham suas revoltas.


Arthur Moura

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