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21 de mar de 2011

Por que o MinC está certo em autorizar Maria Bethânia a captar 1,3 milhão para seu blog

by Pablo Villaça

Se eu fosse um troll querendo irritar propositalmente meio mundo, este seria o título de um post dedicado a defender o deferimento do projeto de Maria Bethânia.

Mas não sou e este post não fará isso.

Porque não há como defender um absurdo como este. Sim, a Lei Rouanet é, hoje, um dos principais mecanismos fomentadores da cultura brasileira. É um sistema imperfeito, repleto de falhas, mas é o que temos - e, bem ou mal, tem conseguido viabilizar uma infinidade de projetos importantíssimos que, de outra maneira, jamais sairiam do papel e que, ao saírem, se revelaram contribuições importantíssimas para a história cultural de nosso país. No entanto, é preciso que haja bom senso na avaliação das rubricas aprovadas - e esta foi claramente a falha grosseira aqui cometida.

Em primeiro lugar, há que se observar uma perversão do sistema representada pelo modo de captação em si: dos 1,3 milhão de reais aprovados, nada menos do que 130 mil reais (ou 10%) ficarão com a empresa responsável pela captação. É um valor ofensivo quando consideramos que é um dinheiro saído do bolso do contribuinte para, a rigor, apoiar um projeto de cunho cultural - não para enriquecer uma empresa (ou, em muitos casos, laranjas) que fez a intermediação do negócio. A porcentagem da comissão deveria ser bem menor - e deveria, também, ter um limite quanto aos números absolutos relativos a cada projeto. 130 mil reais é um valor indecente. (Update: há um teto - ainda absurdo - de 100 mil reais por projeto.)

Dito isso, é importante avaliar o projeto de Bethânia. Esqueçamos, de cara, a interpretação ridícula da Foxlha, sempre disposta a criar factóides, de que o dinheiro tem como objetivo a criação de "um blog". Colocado nestes termos, é claro que a revolta se torna maior, já que todos aqui sabem que o custo de criação de um blog - mesmo com software e layout proprietários - não chegaria a 5% do valor aprovado. Não, o projeto prevê a produção de 365 vídeos, o que é bastante diferente.

Ignoremos, por um momento, o valor de produção e manutenção do blog em si e consideremos que todo o dinheiro seria investido na produção das peças. R$ 1,17 milhão (já descontados os 10% dos captadores) dividido por 365 resultaria em um valor bruto de R$ 3.205 reais por vídeo - algo muito mais razoável de se aceitar, mesmo que o interesse despertado por um projeto como este junto à população seja mínimo (algo que não devemos jamais levar em consideração, posto que a lei não pode e nem deve tentar avaliar subjetivamente o alcance popular de uma iniciativa cultural, o que prejudicaria artistas dispostos ao choque e ao novo).

A pergunta, então, deveria ser: três mil reais por vídeo é um valor tão absurdo assim? Impulso inicial de quem sabe como é caro produzir audiovisual: não, não é. (Especialmente porque não estamos falando de um vlog produzido por um Felipe Neto da vida em seu quarto na casa da avó enquanto vomita obviedades, mas de algo protagonizado por uma das maiores representantes de nossa música e dirigido por um de nossos cineastas mais bem-sucedidos, Andrucha Waddington.)

Mas basta analisar a lógica por trás da produção para ver que, sim, o valor é absurdo. Porque, a rigor, não estamos tratando de 365 produções individuais que envolverão pré, filmagem e pós isoladas, mas de um grande projeto que envolverá estas três etapas em um momento único (e se não for assim, então os produtores são picaretas e desorganizados). Dita o bom senso que todos os vídeos provavelmente serão produzidos no espaço de um ou dois meses e que não terão, individualmente, mais do que 3-5 minutos cada - e a não ser que cada peça seja ambientada em um cenário absurdo como um dos braços do Cristo Redentor, uma base submarina e a Lua, é lógico supor que o grosso do trabalho será feito em estúdio.

Igualmente razoável é imaginar que a montagem dos vídeos não será uma destas loucuras experimentais que envolverão centenas de horas de pesquisas de imagens de arquivos, já que o projeto é centrado em Maria Bethânia e mantê-la fora de campo seria uma ofensa ao contribuinte.

Temos, então, uma ou duas semanas de diárias de estúdio, produção de figurinos, cenários (estou pensando grande), equipe de filmagem (reduzida, já que não posso acreditar que Waddington vá investir em uma decupagem muito complexa para 365 vídeos de Internet) e as dezenas de horas de ilha de edição (e repito: estamos falando de vídeos de 3-5 minutos envolvendo Bethânia recitando poesias).

Um milhão, cento e setenta mil reais por isso?

Aí, sim, a palavra "absurdo" pode ser dita com propriedade. (E não como a Foxlha e tantos outros blogueiros apressados fizeram ao repetir uma acusação sem qualquer embasamento ou estudo mais detido da natureza da projeto.)

Claro que, para ser completamente justo, eu (na verdade, qualquer um) só poderia bater o martelo nesta acusação depois de estudar a planilha de custos apresentada pelos proponentes ao Ministério da Cultura. Mas ainda assim, considerando a logística da produção e uma experiência básica em audiovisual, a conta ainda soa exageradamente salgada e fora de propósito.

Especialmente quando consideramos que Bethânia já foi beneficiada pelo MinC há pouco tempo depois que uma comissão do ministério deu parecer negativo ao seu pedido de captação apenas para que Juca Ferreira ignorasse a opinião de seus próprios técnicos e concedesse à cantora a autorização para captar outra fortuna.

Bethânia é - e me perdoem o clichê faustosilvano - um monstro sagrado de nossa cultura. Mas isto não quer dizer que ela tenha o direito de enfiar as mãos em nossos bolsos desta maneira - especialmente por um projeto que qualquer produtor competente faria (e muito bem feito) por um terço do valor aprovado.

E a vocalista do Doces Bárbaros certamente concordaria comigo quanto a isso.


A coisa só piora.

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